MULHERES DEZ NO JORNAL BOQUEIRÃO !

por Isabel Machado - isabelmachado@mulheresdez.com 

 

• Edição de15 de Abril de 2006

Coragem

Não lembro o ano, só sei que conheci Fabrício Viana através de uma das inúmeras listas de discussão que participo pela Internet. Recordo que admirava seus comentários sobre os mais diversos assuntos, observando que se tratava de um cara inteligente, coerente, antenado... E muito corajoso por expor sua vida, de forma tão aberta, para conhecidos e (milhares) desconhecidos que vagam no mundo virtual.

 

MÃE, SOU GAY !

O que fazer quando o filho revela sua homossexualidade?  O livro O Armário de Fabrício Viana trata a questão com profundidade.

 

Quando pensei em abordar um tema tão delicado como esse no meu programa na TV, já tinha em mente o perfil do entrevistado. Tinha que ser alguém com experiência de vida, alguém que se expressasse sem preconceitos, sem termos técnicos, muito menos teóricos. Alguém que falasse diretamente, de forma simples e clara, para milhares de mães, pais, tios, avós, que não sabem como agir quando se deparam com a questão da homossexualidade dentro de casa.

O escolhido foi Fabrício Viana, um dos grandes militantes da web brasileira, idealizador de vários projetos que já marcaram a história da Internet e a vida de vários adolescentes. Tem 28 anos, é formado em psicologia e escreve artigos para diversos portais e veículos especializados no público GLBT (Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros) como a revista G Magazine, Sexy Boys, entre outras. Também é idealizador de três projetos sociais para o mesmo público na Internet: em 2002, a Campanha GLBT espalhou para mais de 2.200 sites, blogs e fotologs, banners de protesto contra o preconceito; em 2003, o portal Armário X, com mais de 800 páginas, inovou por esclarecer questões sobre a sexualidade e a homossexualidade; em 2004, a TVTudo.com, o 1º programa independente em banda larga para o público GLS (Gays, Lésbicas e Simpatizantes), que exibe artigos e vídeos com personalidades (ou não) do meio gay.

Seu mais novo filho, o livro O Armário – Vida e Pensamento do Desejo Proibido aborda todo o processo de “entrada e saída do armário", focando os conflitos, as neuroses, a condenação histórica (da religião e da ciência) e o que fazer para se libertar de tudo isso.

Doença?

Desde 1973, a APA – Associação Americana de Psiquiatria retirou a homossexualidade do seu “Manual de Diagnóstico e Estatística de Distúrbios Mentais”, depois de rever estudos e provas que revelavam que a homossexualidade não se enquadra nos critérios utilizados na categorização de doenças mentais. A homossexualidade é, portanto, uma forma de orientação sexual. Em 1985, o Conselho Federal de Medicina do Brasil passa a desconsiderar a homossexualidade uma doença, o mesmo ocorrendo em 1991 com a Organização Mundial da Saúde. Com isso, cai o emprego do uso “homossexualismo” (porque o sufixo “ismo” é usado para terminologia de palavras associadas a doenças), passando a ser utilizada como referência “homossexualidade”.

O livro

Podemos dizer que O Armário se divide em duas partes: começa com um detalhado relato autobiográfico, onde Fabrício expõe sua intimidade, a adolescência, as descobertas sexuais, namoros, tudo isso contado de uma forma deliciosa e meio “voyeurística”, como se estivéssemos lendo secretamente um diário. Depois, o autor passa a contar a história da condenação religiosa e científica, como a homossexualidade era vista nos primórdios da humanidade, até a “saída do armário”, com todas as conseqüências dessa decisão.

Fabrício não precisou dizer “Mãe, sou gay!”. Foi ela quem perguntou: “Meu filho, você é gay?”. Sim, ela mesma descobriu observando as amizades, os telefonemas, o modo de agir... e confirmando com a leitura - às escondidas - de um livro adquirido por Fabrício que relatava experiências homossexuais. Primeiro, ela ficou abatida, chorou, procurou ajuda psicológica. Depois, quis conhecer a danceteria – e o namorado – de Fabrício. As reações, o sucesso no palco, a fila de garotos que queriam cumprimentá-la e até mesmo conversar (na verdade transferiram para ela a vontade que sentiam de contar para suas próprias mães), tudo isso é relatado de forma doce e verdadeira. Seguiram-se meses em estado de depressão, afinal o filho querido não se casaria com uma mulher, não daria o sonhado neto e muito menos levaria uma vida igual a todas as outras pessoas.

Culpa

É claro que, na grande maioria dos casos, é impossível evitar o sentimento de culpa dos pais. Porque, para muitos, é como um verdadeiro castigo ter um filho homossexual, com a inevitável pergunta: “Onde foi que eu errei?”.

Com toda humildade e experiência de vida, Fabrício aconselha. Primeiro, aos filhos: “Não existe uma melhor hora para contar aos pais. O momento ideal é quando você está seguro de si, tem certeza do que realmente é e quer”. E o recado para os pais: “Não adianta ignorar, expulsar. Tem que aceitar e acolher ou vai piorar o conflito. Tem muita mãe que desconfia e não fala, e muito filho que imagina que ela sabe e não fala. O silêncio é horrível”. E acrescenta: “Os pais não sabendo, não tendo essa conversa, como vão saber onde os filhos estão indo, que lugares freqüentam, quem são seus amigos? Não no sentido de vigiar, mas de acompanhar, mesmo!”

Guia

Uma excelente dica é visitar o portal Armário X – www.armariox.com.br , idealizado por Fabrício Viana, com importantes informações para quem deseja “sair do armário”. Já no tópico Para os Pais, um guia claro e objetivo de orientação para pai e mãe de homossexual. Elaborado pelo psicólogo João Batista Pedrosa, é apresentado em forma de perguntas e respostas com questões práticas do dia-a-dia.

Finalizando, Fabrício acrescenta: “Amar verdadeiramente os filhos é não impor condições, aceitando-os como são. Afinal, o sonho de todo homossexual é que seus pais o aceitem”.

 

SERVIÇO:

O autor pode ser contatado pelo endereço eletrônico fabricioviana1977@gmail.com . Site do livro – www.oarmario.com

 

 

• Isabel Machado é jornalista e escritora. E-mail isabel@mulheresdez.com - www.mulheresdez.com 

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2006 Mulheres Dez