|
•
Edição de15 de Abril de 2006

Coragem
Não lembro o ano,
só sei que conheci Fabrício Viana através de uma das inúmeras listas
de discussão que participo pela Internet. Recordo que admirava seus
comentários sobre os mais diversos assuntos, observando que se
tratava de um cara inteligente, coerente, antenado... E muito
corajoso por expor sua vida, de forma tão aberta, para conhecidos e
(milhares) desconhecidos que vagam no mundo virtual.
MÃE, SOU GAY !
O que fazer quando
o filho revela sua homossexualidade? O livro O Armário
de Fabrício Viana trata a questão com profundidade.
Quando pensei em abordar um tema tão delicado como
esse no meu programa na TV, já tinha em mente o perfil do
entrevistado. Tinha que ser alguém com experiência de vida, alguém
que se expressasse sem preconceitos, sem termos técnicos, muito
menos teóricos. Alguém que falasse diretamente, de forma simples e
clara, para milhares de mães, pais, tios, avós, que não sabem como
agir quando se deparam com a questão da homossexualidade dentro de
casa.
O escolhido
foi Fabrício Viana, um dos grandes militantes da web brasileira,
idealizador de vários projetos que já marcaram a história da
Internet e a vida de vários adolescentes. Tem 28 anos, é formado em
psicologia e escreve artigos para diversos portais e veículos
especializados no público GLBT (Gays, Lésbicas, Bissexuais e
Transgêneros) como a revista G Magazine, Sexy Boys, entre outras.
Também é idealizador de três projetos sociais para o mesmo público
na Internet: em 2002, a Campanha GLBT espalhou para mais de 2.200
sites, blogs e fotologs, banners de protesto contra o preconceito;
em 2003, o portal Armário X, com mais de 800 páginas, inovou por
esclarecer questões sobre a sexualidade e a homossexualidade; em
2004, a TVTudo.com, o 1º programa independente em banda larga para o
público GLS (Gays, Lésbicas e Simpatizantes), que exibe artigos e
vídeos com personalidades (ou não) do meio gay.
Seu mais novo
filho, o livro O Armário – Vida e Pensamento do Desejo
Proibido aborda todo o processo de “entrada e saída do armário",
focando os conflitos, as neuroses, a condenação histórica (da
religião e da ciência) e o que fazer para se libertar de tudo isso.
Doença?
Desde 1973, a APA
– Associação Americana de Psiquiatria retirou a homossexualidade do
seu “Manual de Diagnóstico e Estatística de Distúrbios Mentais”,
depois de rever estudos e provas que revelavam que a
homossexualidade não se enquadra nos critérios utilizados na
categorização de doenças mentais. A homossexualidade é, portanto,
uma forma de orientação sexual. Em 1985, o Conselho Federal de
Medicina do Brasil passa a desconsiderar a homossexualidade uma
doença, o mesmo ocorrendo em 1991 com a Organização Mundial da
Saúde. Com isso, cai o emprego do uso “homossexualismo” (porque o
sufixo “ismo” é usado para terminologia de palavras associadas a
doenças), passando a ser utilizada como referência
“homossexualidade”.
O livro
Podemos dizer que
O Armário se divide em duas partes: começa com um detalhado relato
autobiográfico, onde Fabrício expõe sua intimidade, a adolescência,
as descobertas sexuais, namoros, tudo isso contado de uma forma
deliciosa e meio “voyeurística”, como se estivéssemos lendo
secretamente um diário. Depois, o autor passa a contar a história da
condenação religiosa e científica, como a homossexualidade era vista
nos primórdios da humanidade, até a “saída do armário”, com todas as
conseqüências dessa decisão.
Fabrício não
precisou dizer “Mãe, sou gay!”. Foi ela quem perguntou: “Meu filho,
você é gay?”. Sim, ela mesma descobriu observando as amizades, os
telefonemas, o modo de agir... e confirmando com a leitura - às
escondidas - de um livro adquirido por Fabrício que relatava
experiências homossexuais. Primeiro, ela ficou abatida, chorou,
procurou ajuda psicológica. Depois, quis conhecer a danceteria – e o
namorado – de Fabrício. As reações, o sucesso no palco, a fila de
garotos que queriam cumprimentá-la e até mesmo conversar (na verdade
transferiram para ela a vontade que sentiam de contar para suas
próprias mães), tudo isso é relatado de forma doce e verdadeira.
Seguiram-se meses em estado de depressão, afinal o filho querido não
se casaria com uma mulher, não daria o sonhado neto e muito menos
levaria uma vida igual a todas as outras pessoas.
Culpa
É claro que, na
grande maioria dos casos, é impossível evitar o sentimento de culpa
dos pais. Porque, para muitos, é como um verdadeiro castigo ter um
filho homossexual, com a inevitável pergunta: “Onde foi que eu
errei?”.
Com toda humildade
e experiência de vida, Fabrício aconselha. Primeiro, aos filhos:
“Não existe uma melhor hora para contar aos pais. O momento ideal é
quando você está seguro de si, tem certeza do que realmente é e
quer”. E o recado para os pais: “Não adianta ignorar, expulsar. Tem
que aceitar e acolher ou vai piorar o conflito. Tem muita mãe que
desconfia e não fala, e muito filho que imagina que ela sabe e não
fala. O silêncio é horrível”. E acrescenta: “Os pais não sabendo,
não tendo essa conversa, como vão saber onde os filhos estão indo,
que lugares freqüentam, quem são seus amigos? Não no sentido de
vigiar, mas de acompanhar, mesmo!”
Guia
Uma excelente dica
é visitar o portal Armário X –
www.armariox.com.br , idealizado por Fabrício Viana, com
importantes informações para quem deseja “sair do armário”. Já no
tópico Para os Pais, um guia claro e objetivo de orientação
para pai e mãe de homossexual. Elaborado pelo psicólogo João Batista
Pedrosa, é apresentado em forma de perguntas e respostas com
questões práticas do dia-a-dia.
Finalizando,
Fabrício acrescenta: “Amar verdadeiramente os filhos é não impor
condições, aceitando-os como são. Afinal, o sonho de todo
homossexual é que seus pais o aceitem”.
SERVIÇO:
O
autor pode ser contatado pelo endereço eletrônico
fabricioviana1977@gmail.com . Site do livro –
www.oarmario.com
•
Isabel Machado é jornalista e escritora. E-mail isabel@mulheresdez.com
- www.mulheresdez.com
__________________
2006 Mulheres Dez
|