Mas o tempo passou e...

Bom dia, boa tarde, boa noite. Você já deve estar de saco cheio de tanto ouvir que “vivemos na era da informação”, não é? Mas o que é que isso quer dizer realmente? Ou melhor, que cuidados nós devemos ter para viver nesse mar de informações? Um deles é desenvolver alguns filtros. É disso que vamos tratar hoje!
Pra começar, a frase de um anônimo:
Um homem com um relógio sabe que horas são. Um homem com dois relógios, nunca tem certeza.



Eu tinha 12 anos quando a professora de ciências pediu um trabalho escolar sobre quirópteros: a ordem dos morcegos. Comprei cartolina. Pincel atômico. Cola Tenaz (a grande novidade que substituía a goma arábica, na época).
E mergulhei na minha enciclopédia Conhecer.



Para encontrar os quirópteros passei pela Grécia antiga, a Grande Muralha da China, os dinossauros e os satélites artificiais, viajando pelas páginas coloridas dos livros durante horas. Até encontrar os tais morcegos. Aí copiei o texto (à mão, mesmo), recortei revistas, colei na cartolina, e na segunda-feira levei aquela coisa amassada à escola para a professora examinar e dar a nota. Era assim o processo. E nunca mais esqueci o que são quirópteros. Ou como funciona um navio. Ou como morreram os dinossauros...
Mas o tempo passou e...



E hoje, hein? A garotada acessa o Google ou a Wikipédia, digita o assunto que interessa e pronto! Copia, cola e imprime seu trabalho, entrega no dia seguinte e nunca vai se lembrar daquilo que copiou. E nem teve a chance de navegar pela enciclopédia. Foi direto ao ponto.


Mas é esse o novo processo da tal sociedade da informação: tudo está à mão, vindo de qualquer fonte, em qualquer idioma, com imagens, vídeos e sons. Imediatamente.

E a cada dia mais tecnologia é desenvolvida para facilitar mais acesso a mais dados e mais informações.
No entanto, pouca gente percebeu que o DNA da “sociedade da informação” não é a informação. É a logística.



Leva eu sodade


Ô leva eu, minha sodade
Eu também quero ir
Minha sodade
Quando chego na ladeira
Tenho medo de cair
Leva euleva eu
Minha sodade
Menina tu não te lembras
Minha sodade
Daquela tarde fagueira
Minha sodade
Tu te esqueces e eu me lembro
Ai que saudade matadeira
Leva eu
Leva eu
Minha sodade
Na noite de são joão
No terreiro uma bacia
Que é pra ver se para o ano
Meu amor ainda me via
Leva eu
Leva eu
Minha sodade

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Ah, cara, essa eu queria tocar aqui faz tempo... É LEVA EU SODADE, de Tito Guimarães e Alberto Cavalcanti. Essa toada fez um baita sucesso em 1962, ao ser gravada por Nilo Amaro e seus Cantores de Ébano. A gravaçãoque você ouviu é de 1980, com a voz grave do cantor Geraldo, que substituiu Noriel Arantes, o vozeirão original que marcava o som gospel desse grupo brasileiro. Noriel Arantes partiu para a carreira solo e se transformou em Noriel Vilela. Cantores de Ébano, sabe onde?

Você Sabia?


Nilo Amaro e Seus Cantores de Ébano

Apareceram na MPB no início dos anos 60 e fizeram uma espécie de gospel à brasileira. Era um coro de vozes negras com algo de brejeirice em números os mais ecléticos possíveis, indo do sertanejo (Fiz a Cama na Varanda, Vaqueiro Prevenido) ao pop internacional de então (Tammy). Infelizmente, depois de gravar dois álbuns na Odeon (em 1961 e 1963),  desapareceram.


Deixaram para a posteridade pelo menos um sucesso – Leva Eu Sodade,  do qual os cinqüentões devem se lembrar. Bastante afinado, o grupo contava com ainda com vozes masculinas e femininas de diversos matizes. Seu uníssono quase sacro chega a comover em números do nosso folclore como: A Lenda do Abaeté, A Lenda do Rio Amazonas, Azulão,

Minha Graúna.


Estamos na era dos filtros


O DNA da “sociedade da informação” é a logística. A maioria absoluta da informação à qual temos acesso hoje, sempre esteve por aí, disponível. A “sociedade da informação” apenas popularizou as ferramentas de acesso às idéias e obras de Platão, Einstein, Picasso, Sinatra ou Cecília Meireles.



Platão, Einstein, Picasso, Sinatra e Cecília Meireles


Mas de que vale tanto acesso à informação para quem não tem repertório para interpretá-la?


Filtrar tudo a que temos acesso para escolher a informação relevante é o maior desafio para quem quer não apenas sobreviver, mas vencer na sociedade da informação. Estamos na era dos filtros.

É possível comprar ou emprestar filtros. É assim que fazemos quando escolhemos aquilo que todo mundo está usando, a música que todo mundo está ouvindo, o livro que todo mundo anda lendo: usamos os filtros dos outros.


Quando escolhemos um jornal ou revista para ler, escolhemos um filtro. É através dos olhos dos editores que veremos o mundo.


E a maioria das pessoas, com preguiça ou por pura ignorância, passa a vida vendo o mundo pelos filtros dos outros.


Dá para viver assim? Dá. Dá até para ter algum sucesso. Mas seremos sempre nada mais que previsíveis.


Bem, minha recomendação é que você invista no desenvolvimento de seus próprios filtros. E você vai perguntar: como?


Olha, dá trabalho, pois exige estudo e – sobretudo – atenção. É necessário estar permanentemente atento para refletir sobre nossas experiências, sobre o que passamos e quais as conseqüências. Estar atentos para diversificar nossas leituras, usar a multiplicidade de idéias da internet, encontrar mentores que nos orientem e sempre lançar aquela perguntinha marota: - Por quê?



E por que não?


Eu estou amando,
a minha menina.
E como eu adoro,
suas pernas fininhas.
Eu estou cantando,
pra minha menina.
Pra ver se eu convenço
ela a entrar na minha.

E por que não?

Teu sangue é igual ao meu,
teu nome fui eu quem deu,
te conheço desde que nasceu!
E por que não?

Eu estou adorando ver a minha menina,
com algumas colegas, dela da escolinha.
Eu estou apaixonado pela minha menina.
Ouve o jeito que ela fala, olha, o jeito que ela
caminha.

E por que não?
Teu sangue é igual ao meu,
teu nome fui eu quem deu,
te conheço desde que nasceu!
E por que não?

Eu estou amando, a minha menina.
Ouve o jeito que ela fala, olha o jeito que ela
caminha.

E por que não?
Teu sangue é igual ao meu,
teu nome fui eu quem deu,
te conheço desde que nasceu!
E por que não?

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Você vai ouvir, no podcast, E PORQUE NÃO?, com a banda gaúcha Bidê ou Balde. É sim! Bidê ou Balde é o nome da banda formada em 1998 em Porto Alegre. Após a gravação do Acústico MTV Bandas Gaúchas, essa música rendeu à banda processos com acusações de incentivo ao incesto e pedofilia. Leia a letra e tire suas conclusões... Bidê ou Balde, no Café Brasil.

Você Sabia?


Bidê ou balde

Criada em Porto Alegre, no final de 1998, a Bidê ou Balde lançou em novembro de 2000 o seu disco de estréia, "Se sexo é o que importa, só o rock é sobre amor!", pelo selo gaúcho Antídoto, com distribuição nacional pela gravadora Abril Music. Desde o lançamento, o grupo acumulou elogios da imprensa e shows memoráveis (o disco foi considerado o terceiro melhor do ano 2000 pela revista de rock Bizz, e outros tantos meios o incluíram nas suas listas de melhores daquele ano também), culminando a sua trajetória na premiação do vídeoclipe do hit single "Melissa" no Video Music Brasil (VMB) da MTV de 2001, na categoria Melhor Grupo/Artista Revelação.


http://www.youtube.com/watch?v=oEn71o4fkjI  - Bidê ou balde - E por que não?

http://www.youtube.com/watch?v=44C28zHIk_w  - Bidê ou balde - Melissa

http://www.youtube.com/watch?v=redOxhfenp8  - Bidê ou balde - Mesmo que mude

Bidê ou Balde


Sim e não


E vamos continuando nosso texto de hoje

A minha amiga Jussara Simõesdiz assim: “A melhor maneira de ocultar a verdade é usar um português obscuro, ambíguo”. Quer ver?

 


Ao fundo, no podcast, você ouvirá SOPAPO, de João Donato e Paulo Moura... Escuta só que delícia...

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João Donato e Paulo Moura

 


Encontrei um exemplo de português obscuro, olha só:

O Portal Imprensa publicou que os Portais UOL, Terra e Globo decidiram notificar a Rede Record por supostamente distorcer os dados do Ibope para classificar seu portal R7 como o segundo maior Portal do Brasil. No final do texto, os jornalistas escreveram: “Procurada pela reportagem, a Rede Record afirmou, por meio de sua assessoria, não ter recebido qualquer notificação.”

 

 


Hummm... a Record não recebeu “qualquer” notificação, mas pode ter recebido uma notificação “específica”; e se ela recebeu uma notificação específica, não mentiu aos jornalistas quando disse que não recebeu uma notificação qualquer, entendeu? Escrevendo não recebemos qualquer, eles podem estar dizendo: recebemos uma.
 


O pequeno truque do português ambíguo, que pega muita gente que confunde não mais qualquer com nenhum.

 


Sim e não


Todo mundo diz sim
Todo mundo diz não
Todo mundo quer ajuda
Mas na hora de ajudar
Todo mundo lava a mão

Cantar, dançar
Posso falar e você não escutar
Nem tudo que sai da boca
É o bastante pra você acreditar
Ele não vai escutar
Se você não souber falar
Ele não vai escutar
Mesmo que demore
Nunca deixe de tentar
Tem que tentar levar
Levar a alegria
Até onde não existia
Levar a alegria
Mesmo que demore
Quem ama o feio
Bonito lhe parece
Mas talvez
Quem pareça feio
Mereça o seu amor
Quem vê cara
Não vê coração

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Hoje o Café Brasil ta cheio de sons novos... Essa é SIM E NÃO, com a banda Caboclada. A Caboclada é de São Paulo, composta pelos irmãos Marcio e Téo Werneck, o baixista TC e o bateirista Carneiro Sândalo. O Caboclada faz um som pop rock com contribuições da cultura popular que Marcio Werneck captura em suas viagens pelo Brasil. Caboclada, no Café Brasil!

 


http://www.youtube.com/watch?v=BXPNtj1eA5c  - Caboclada - Tipo assim!

http://www.youtube.com/watch?v=LeDtqeHslyM  - Caboclada no programa Viola minha viola de Inezita Barroso

 

Caboclada

 


Muito bem...Se você ouviu meu programa anterior vai se lembrar que eu disse assim: vivemos numa sociedade onde nenhum valor moral é mais importante que a troca de nosso dinheiro (ou poder) por um produto. Nesse ambiente competitivo, se os argumentos dos “vendedores” são verdadeiros ou não, não tem importância, contanto que sejamos persuadidos.
 


Hoje em dia, como nunca antes neste país, malabarismos lingüísticos fazem com que um sim signifique não. Lembra disso? E pouca gente percebe. É de novo estamos de cara com um programa de proteção aos direitos humanos que cassa direitos humanos. Ou um chamado “Comitê da verdade” que só quer a verdade de um lado. Ou o caixa dois transformado em “recursos não contabilizados”. Ou uma “promoção” que custa mais caro. Ou o corrupto que é apresentado como grande político. Foi isso que eu disse no programa anterior e tem tudo a ver com esse aqui. E assim por diante.

 

 


E voltando ainda ao programa anterior. Lembra o que eu falei de George Orwell? Foi ele quem escreveu: “Se as idéias corrompem a língua, a língua também corrompe as idéias”.Por isso enriquecer o vocabulário não serve só para falar bonito. Serve para pensar direito.

 


Obesidade mental


Que tal hem? Você está ouvindo, no podcast, BONITINHO, de Yamandu Costa e Dominguinhos, com os dois... olha que loucura...
Tem coisa melhor que música popular brasileira feita por gênios? Não tem, né?

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http://www.youtube.com/watch?v=glhnv18HGog  - Yamandu e Dominguinhos - Perigoso

http://www.youtube.com/watch?v=WCfCF2PxrKg  - Yamandu e Dominguinhos - Tico tico no fubá

 

 


Algum tempo atrás usei num dos programas um texto delicioso chamado OBESIDADE MENTAL, escrito por João César das Neves, professor português. Vale hoje aqui lembrar um trechinho dele:

 


“...nossa sociedade está mais atulhada de preconceitos que de gorduras, mais intoxicada de lugares-comuns que de hidratos de carbono. As pessoas se viciaram em estereótipos, juízos apressados, pensamentos tacanhos, condenações precipitadas. Todos têm opinião sobre tudo mas não conhecem nada a fundo.

 


Os cozinheiros desta magna fast-food intelectual são os jornalistas comentadores, os editores da informação filósofos, os romancistas e realizadores de cinema. Os telejornais e telenovelas são os hamburgers do espírito, as revistas e romances são os donuts da imaginação. (...) O conhecimento das pessoas aumentou, mas é feito de banalidades. Todos sabem que Kennedy foi assassinado, mas não sabem quem foi Kennedy. Todos dizem que a Capela Sistina tem teto, mas ninguém suspeita para que é que ela serve. Todos acham que Saddam é mau e Mandella é bom, mas nem desconfiam porquê. Todos conhecem que Pitágoras tem um teorema, mas ignoram o que é um cateto.
 

Nelson Mandela e Sadam Hussein

 


(...) Não admira que, no meio da prosperidade e abundância, as grandes realizações do espírito humano estejam em decadência. A família é contestada, a tradição esquecida, a religião abandonada, a cultura banalizou-se, o folclore entrou em queda, a arte é fútil, paradoxal ou doentia. Floresce a pornografia, o cabotinismo a imitação, a sensaboria, o egoísmo.
 


Não se trata de uma decadência, uma idade das trevas ou o fim da civilização, como tantos apregoam. É só uma questão de obesidade. O homem moderno está adiposo no raciocínio, gostos e sentimentos. O mundo não precisa de reformas, desenvolvimento, progressos. Precisa sobretudo de uma melhor dieta mental.

 

 


Melhor dieta mental...

 


Quem me acompanha neste Café Brasil já sabe qual é meu objetivo: tento estimular as pessoas a praticar o velho hábito do pensar. Do raciocinar. Da reflexão. Pra mim essa tem sido a grande perda (que tem gente que chama de perca...) da humanidade: o exercício do pensamento, da reflexão, das comparações, do julgamento e da tomada de decisão.

 


Essa falta de exercício engorda, sabe? Mas engorda o cérebro, como diz o texto do Prof. João Cesar das Neves... O problema é que não se trata daquela gordura que chamamos de lipídeos e que é responsável por essa sua barriguinha, esse seu culote, esse papo. A gordura do cérebro é outra. Ela engorda não com gordura, mas com informações inúteis. Ocupamos o cérebro com besteiras, com informações que não vamos usar, com porcarias trazidas pela mídia...

 


Muito bem, viu como é a coisa? Se comida saudável ajuda a manter o corpo saudável, informação saudável ajuda a manter a mente saudável. Simples, não é? E adivinha quem é que escolhe que informações vai deixar entrar em seu cérebro.

 



 


Baixe as arma, comedor!

Oh morena, oh moreninha
Deixa de morenação
Larga dessas invenção
De nós dois sozim ficar
Mode evitar confusão
Larga dessas invenção
Pense da zabumbação
E se teu pai desconfiar?

E vai que tu pega enxaqueca
E vai que eu sou bom de curar
E vai que tu arrisca um verbo
E vai que eu saiba verbiar
Vai que eu vire flecha doida
E vai que tu quer se flechar
Vai que tu seja espoleta
E vai que eu seja um malagueta

Feito goela de dragão

E vai que tu vem toda bela
De laço e fita amarela
Vai que tu se passarela
Vai que eu seja o rés do chão
Vai que tu arriba a saia
Vai que eu veja o essenciá
Vai que tu pede embreagem
Vai que eu saiba debrear

Vai que tu venta pro norte
Vai que sou todim jangada
Vai que eu seja um taboleiro
E vai que eu seja cocada
Vai que tu se enrouxinó-las
Vai que eu seja passarinho
Vai que eu saia da gaiola
Vai que amostre o ninho

E vai que tu sois moça anja
Vai que eu seja um pecador
Vai que tu sois gozo eterno
Vai que eu sou rojão do amor
Vai que teu “ui ui, meu bem”
Acorde o véi roncador
Vai que esse véi grite brabo
Com o revolver no meu rabo:

- Baixe as arma, comedor!

 

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 Pois é... E é assim ao som de Jessier Quirino com seu BAIXA AS ARMA COMEDOR, que o Café Brasil de hoje vai embora...

 

Jessier Quirino

 


Com Lalá Moreira na técnica, Ciça Camargo na produção e eu: Luciano Pires na direção e apresentação.

Estiveram conosco Nilo Amaro e seus Cantores de Ébano, Bidê ou Balde, João Donato e Paulo Moura, Jessier Quirino, Caboclada, Yamandu Costa e Dominguinhos... Pode isso?

Gostou? Pois dê uma olhada no  www.lucianopires.com.br . Tem muito mais conteúdo por lá. E conteúdo saudável, que não engorda...

 

 


Pra terminar, vamos com uma frase de um anônimo:

 


Todos tem o direito de ser estúpidos. Alguns apenas abusam desse privilégio.

 

 

Luciano Pires